meu texto para o ornitorrinco#7
quarta: sonhei que eu estava na frança. mas era cabo frio. um rapaz de um albergue dança comigo, me chama de querida, mas logo chega a namorada dele. eu aceito, sorrio e me despeço. saio andando só. no meio do caminho uma feirinha, várias barracas. tio junior aparece e diz que vai me dar a chave. eu queria ir ao mediterrâneo. da feirinha eu sentia o cheiro do mar. saio andando de novo. muita gente na rua. um homem me para no meio do caminho, tenta me flertar. sou bem grossa e digo SAI DA MINHA FRENTE. chego ao mar. não há ninguém dentro d'água, todos na areia. eu entro. e tomo um choque. não sei se pela água gelada ou pelos peixes elétricos que vejo. nisso, lucas chega com uma bandeja de café da manhã. meu pai insiste pra eu ver um filme onde um golfinho engole uma criança. eu digo nãããão.
quinta: sonhei com uma orquestra. acho que o lucas tocava. teatro antigo. eu ficava admirando e ele saía do palco numa bicicleta. um amigo que não vejo há tempos cospe cerveja em mim. somos expulsos do teatro. na rua, em frente à uma farmácia, um touro solto pega uma menina, coitada.
sexta: estou na casa da tia martha, as pessoas estão muito bêbadas, um clima estranho. um homem quer me levar em casa. climão. acordo com o lucas no rio comprido. quebro um copo e depois faço esteira. resolvo me fantasiar de cher em "minha mãe é uma sereia". vou numa festa à fantasia. keli e fabrício estão de suicidas. eu estou de cléopatra. me prendem de verdade no final da festa. mó merda.
sábado: dois amigos meus alucinados correndo em volta de uma árvore, não falam lé com cré. entro numa lei seca no sítio em teresópolis. meu ex namorado entra num bad trip absurda. eu quase entro numa, estou meio louca. lucas vai tocar num casamento. eu resolvo cantar "con toda palabra" da lhasa de sela. fico normal quando canto. depois estou no hospital. vou operar minhas varizes. bebo muito líquido. tem uma menininha do lado da minha cama linda. branquinha com pintinhas. eu digo: "você tem duas pintinhas em formato de coração". do nada ela vira um demônio e começa a gritar: "mija em mim!".
domingo: resolvo entrar na faculdade. sou bem recebida. os alunos me cheiram. sexual. tenho que fazer um trabalho com título DAIMOKO (nota da autora: nunca soube o que essa palavra significava). depois faço xixi, uma menina abre a porta. tenta fazer um filme. depois ouço minha música num estúdio. percebemos que alguém atira num jacaré. mas logo percebe-se que a pessoa matou o jacaré errado, pois dentro desse jacaré morto estava a marília gabriela, que agora também está morta.
segunda: lucas e eu num parque aquático. existe um trato: se você quiser mergulhar com os tubarões, eles podem te matar, mas você ganha uma garantia de que volta ao mundo, mesmo depois de morrer. resolvemos arriscar. mergulhamos com os tubarões. morremos. e voltamos ao mundo. estou no sítio. a casa tem formato de navio. meu pai aparece e eu tomo um susto pois achei que ele já tinha morrido. chego perto dele e digo: "pai, depois que você morreu, eu te vejo muito aqui na pedra do lago". depois descubro que o ator que faz o ross de "friends" também morreu.
terça: é hoje
domingo, 19 de junho de 2011
sexta-feira, 17 de junho de 2011
mas há também feiúra

2008: 22 dias viajando, sem amor-sexo, álcool, amigos. conhecendo lugares, mas A TRABALHO. cansada, muito cansada. queria voltar para o aniversário do lucas. a produtora errou a data. fomos ao aeroporto de santiago, era só pro dia seguinte. nesse dia, em menos de 24 horas passamos em 4 países: uruguai-argentina-chile-brasil. eu menstruei. essa minha cara foi depois de saber que eu não ia embarcar naquela hora
quinta-feira, 16 de junho de 2011
terça-feira, 14 de junho de 2011
solário
tem tempo que eu não pego sol. isso não significa inverno. é trabalho. pela primeira vez na vida observo a cor do meu corpo ser da cor do meu peito. no fundo-no fundo, sou branquela. nascida galega. mas minha bisavô paterna era mulata. agradeço a bocona, a crina difícil, nem tanto. sempre morei em bairro afastado do burburinho cultural, mas sempre tive piscina. sempre tive marca de biquini. quando sozinha, pegava sol nua, e o mais próximo dessa sensação é o de mergulhar nua. a água invade diretamente partes eróticas e sempre tão protegidas. e água é amor. encostando então, que amor. mas sempre fui corada, mesmo não sendo garota de ipanema. sempre tive um bronze. agora, trabalhando, produzindo o CUPRAFORA, e só me utilizo de tal expressão chula pra que meu suor seja reconhecido, ando branca, zumbi. leite condensado. o homem que me ama repara. "sua cor tá igual ao seu peito". achei bonito. posso dizer europeu? posso rir? hahahahaha. as olheiras e varizes faciais aparecem bem mais. mas a seriedade cria caule num rosto que sempre foi meu. eu, que sempre fui dada aos sorrisos, vou deixando o poder solar pro coração. não petrifico tal gelo, mas viro nobre numa levantada de queixo ao céu. eu sempre terei as férias.
domingo, 5 de junho de 2011
texto pro ornitorrinco sobre cinema
Diaba
(ou Tentei)
A primeira vez que eu fui ao cinema ou a primeira vez que eu lembro de ter ido ao cinema, foi a Kátia que nos levou. Eu, Bernardo e Léo, meus dois irmãos mais velhos. Se você não me conhece, dizer isso: “meus 2 irmãos mais velhos”, sempre ajuda um pouco. A Kátia foi nossa empregada durante 10 anos, mas ela era muito esperta e minha mãe sabia disso e a ajudou a abrir uma padaria lá na Fazenda Botafogo. Sabe onde é? É longe de onde você mora. Nós fomos à inauguração. Foi emocionante e as pessoas olhavam muito pra gente. Mas sim, a primeira ida ao cinema. Era o Carioca, o maior cinema da Tijuca. Escadaria, mármore, cortinas, codiloco. Eu fui carregada. Não me questionaram. Sentei ao lado da Kátia. Talvez pipocas, talvez Mentex. Era “A lenda”, um lance floresta mística, fadas, unicórnios, mas nem por isso, era um filme pra criança. Pois lá pelas tantas, SURGE o diabo. O demônio. O diabo mais diabo de toda a história da minha vida de 5 anos. Só lembro que comecei a chorar e não parei. As outras crianças ou adultos começaram a fazer “SHHHHHHHHHHHH” e Kátia me levou pra fora, tomar um picolé de limão, tentar esquecer a visão do monstro. Nunca mais dormi sem botar as mãos nos ombros e comecei a precisar de abajour. Depois fui pra rir com os Trapalhões, minha mãe arriscou a própria sanidade e a minha, me levando pra ver coisas como “Léolo”, com 9 anos; veio a escola, veio a identidade falsa pra ver “Cassino” e eu nunca mais ouvi tanto FUCK na vida; veio a primeira tentativa de beijo, veio também um tarado que botou o pau pra fora e bateu uma do meu lado (eu nunca tinha visto um pau duro na vida, eu tinha 16 anos). Ao invés de ir embora correndo, como minha prima sugeriu, eu sentei atrás dele e comecei a chutar a cadeira. Eu tenho dois irmãos mais velhos. O filme? “Melhor Impossível”. Veio o shopping center, veio a pipoca de microondas, veio o fim da Tijuca. Fui ao cinema sozinha. Não chorei em alguns finais, mas bem chorei no metrô das 23:47. Esse eu lembro bem, foi “Céu de Suely”. Teve também “Luz silenciosa”, onde Lucas e eu nos entregamos de tal maneira, que ficamos suspensos, atordoados. Um casal ao lado comentava em voz alta sobre uma cena “QUE RIDÍCULO”. Semi cortaram nossa catarse. Comecei a cuspir no chão deles. Cuspi, cuspi. Cuspi no chão do Laura Alvim, perdão. O filme acabou e fomos em direção ao mar tentar nos acalmar. Um carro passou quase nos atropelando, era o casal COMENTARISTA-CORTADOR-DE-ONDA do cinema. Perguntaram “Que porra é essa de ficar cuspindo?” Nós não falamos nada e mostramos nosso rosto. Nosso rosto afetado pelo cinema. Eles saíram sem cantar pneu. Sorte no cinema. Eu gosto dessa frase. É raro, mas quando é, nossa. Veio muita coisa. E com medo de ser chata, nostálgica e repetitiva, termino do começo. Aluguei “A lenda” ano passado. Com Lucas, claro, sozinha seria assombroso rever. Fui para o sítio, o que poderia aumentar o medo, e revi o diabo. Não tive medo, fiquei feito louca, fascinada com o ator. Faltou contar também do dia do rato no cinema, do menino com bafo, da primeira vez que vi minha cara no Odeon, do filme 3D sobre o espaço no museu de ciência de Londres, da comédia romântica que eu faço a melhor-amiga da personagem da Cléo Pires e estréia (acentuarei pra sempre) agora dia 10 de junho. Chama "Qualquer gato vira-lata". De punheteiros na Tijuca até uma estréia no Le Blond, posso até dizer que tô bem, né? Sorte no cinema.
(ou Tentei)
A primeira vez que eu fui ao cinema ou a primeira vez que eu lembro de ter ido ao cinema, foi a Kátia que nos levou. Eu, Bernardo e Léo, meus dois irmãos mais velhos. Se você não me conhece, dizer isso: “meus 2 irmãos mais velhos”, sempre ajuda um pouco. A Kátia foi nossa empregada durante 10 anos, mas ela era muito esperta e minha mãe sabia disso e a ajudou a abrir uma padaria lá na Fazenda Botafogo. Sabe onde é? É longe de onde você mora. Nós fomos à inauguração. Foi emocionante e as pessoas olhavam muito pra gente. Mas sim, a primeira ida ao cinema. Era o Carioca, o maior cinema da Tijuca. Escadaria, mármore, cortinas, codiloco. Eu fui carregada. Não me questionaram. Sentei ao lado da Kátia. Talvez pipocas, talvez Mentex. Era “A lenda”, um lance floresta mística, fadas, unicórnios, mas nem por isso, era um filme pra criança. Pois lá pelas tantas, SURGE o diabo. O demônio. O diabo mais diabo de toda a história da minha vida de 5 anos. Só lembro que comecei a chorar e não parei. As outras crianças ou adultos começaram a fazer “SHHHHHHHHHHHH” e Kátia me levou pra fora, tomar um picolé de limão, tentar esquecer a visão do monstro. Nunca mais dormi sem botar as mãos nos ombros e comecei a precisar de abajour. Depois fui pra rir com os Trapalhões, minha mãe arriscou a própria sanidade e a minha, me levando pra ver coisas como “Léolo”, com 9 anos; veio a escola, veio a identidade falsa pra ver “Cassino” e eu nunca mais ouvi tanto FUCK na vida; veio a primeira tentativa de beijo, veio também um tarado que botou o pau pra fora e bateu uma do meu lado (eu nunca tinha visto um pau duro na vida, eu tinha 16 anos). Ao invés de ir embora correndo, como minha prima sugeriu, eu sentei atrás dele e comecei a chutar a cadeira. Eu tenho dois irmãos mais velhos. O filme? “Melhor Impossível”. Veio o shopping center, veio a pipoca de microondas, veio o fim da Tijuca. Fui ao cinema sozinha. Não chorei em alguns finais, mas bem chorei no metrô das 23:47. Esse eu lembro bem, foi “Céu de Suely”. Teve também “Luz silenciosa”, onde Lucas e eu nos entregamos de tal maneira, que ficamos suspensos, atordoados. Um casal ao lado comentava em voz alta sobre uma cena “QUE RIDÍCULO”. Semi cortaram nossa catarse. Comecei a cuspir no chão deles. Cuspi, cuspi. Cuspi no chão do Laura Alvim, perdão. O filme acabou e fomos em direção ao mar tentar nos acalmar. Um carro passou quase nos atropelando, era o casal COMENTARISTA-CORTADOR-DE-ONDA do cinema. Perguntaram “Que porra é essa de ficar cuspindo?” Nós não falamos nada e mostramos nosso rosto. Nosso rosto afetado pelo cinema. Eles saíram sem cantar pneu. Sorte no cinema. Eu gosto dessa frase. É raro, mas quando é, nossa. Veio muita coisa. E com medo de ser chata, nostálgica e repetitiva, termino do começo. Aluguei “A lenda” ano passado. Com Lucas, claro, sozinha seria assombroso rever. Fui para o sítio, o que poderia aumentar o medo, e revi o diabo. Não tive medo, fiquei feito louca, fascinada com o ator. Faltou contar também do dia do rato no cinema, do menino com bafo, da primeira vez que vi minha cara no Odeon, do filme 3D sobre o espaço no museu de ciência de Londres, da comédia romântica que eu faço a melhor-amiga da personagem da Cléo Pires e estréia (acentuarei pra sempre) agora dia 10 de junho. Chama "Qualquer gato vira-lata". De punheteiros na Tijuca até uma estréia no Le Blond, posso até dizer que tô bem, né? Sorte no cinema.
segunda-feira, 23 de maio de 2011
Insoniaziña
ornitorrinco #5
Cogito arrancar os braços pra dormir. No ombro, um parafuso. Quando solto, braço livre e corpo rolando de um lado pro outro, sem quebra-molas. Que sonho.
O corpo só atrapalha pra dormir. E ainda por cima os colchões não são acopláveis a cada tipo de corpo, e se assim fossem, acordaríamos destruídos.
E ainda têm os espasmos. Quando nos posicionamos pra dormir, imóveis pra fora, mas dentro com a GRÉCIA-NO-VERÃO-O-DIA-QUE-EU-QUEBREI-O-COPO-VERDE-DA-MINHA-VÓ-PRECISO-GANHAR-DINHEIRO-PRECISO-IR-NUM-ENDOCRINO-MEU-IRMÃO-PODIA-VOLTAR-O-BANHEIRO-ESTÁ-COM-O-TAPETE-IMUNDO, é curioso perceber quando de supetão, sua coxa se mexe. Ou seu pé, ou a cara toda mesmo. Você não mandou, não enviou a mensagem, o estímulo, o pontapé do movimento e mesmo assim, o corpo desobedeceu. Mexeu, sozinho. Outrem no controle remoto. Alguém te zoando, te sacaneando. Espíritos. Sua vó, talvez, minha prima.
Daí que você volta a tentar. Definitivamente os ombros são o problema, o costume do pescoço prum lado, a exigência do outro lado em estar perto também do travesseiro.
O homem ao meu lado desliga a TV agora, precisa dela pra dar sono vez ou outra. Se eu a vejo, eu me envolvo aos 45 do segundo tempo de um filme. Capaz d’eu chorar. Conforme a TV apaga, mesmo de olhos fechados, por uns segundos esqueço a GRÉCIA-NO-VERÃO-O-DIA-QUE-EU-QUEBREI-O-COPO-VERDE-DA-MINHA-VÓ-PRECISO-GANHAR-DINHEIRO-PRECISO-IR-NUM-ENDOCRINO-MEU-IRMÃO-PODIA-VOLTAR-O-BANHEIRO-ESTÁ-COM-O-TAPETE-IMUNDO e sinto a chegada das mitocôndrias visuais. Muito comuns em dias claros, na praia. Confundem com “vista arranhada”. Eu confundo com ribossomos e Complexos de Golgi. Ficam piscando e se mexendo dentro do meu olho, eu posso guiá-las pra lá e pra cá. Eu posso expandi-las, eu posso fingir que sumiram, mas fazer voltar. Eu só não posso dormir.
Boa noite, Grécia.
Boa noite, corpo.
Boa noite, ciência.
Ótima noite, guerra.
Cogito arrancar os braços pra dormir. No ombro, um parafuso. Quando solto, braço livre e corpo rolando de um lado pro outro, sem quebra-molas. Que sonho.
O corpo só atrapalha pra dormir. E ainda por cima os colchões não são acopláveis a cada tipo de corpo, e se assim fossem, acordaríamos destruídos.
E ainda têm os espasmos. Quando nos posicionamos pra dormir, imóveis pra fora, mas dentro com a GRÉCIA-NO-VERÃO-O-DIA-QUE-EU-QUEBREI-O-COPO-VERDE-DA-MINHA-VÓ-PRECISO-GANHAR-DINHEIRO-PRECISO-IR-NUM-ENDOCRINO-MEU-IRMÃO-PODIA-VOLTAR-O-BANHEIRO-ESTÁ-COM-O-TAPETE-IMUNDO, é curioso perceber quando de supetão, sua coxa se mexe. Ou seu pé, ou a cara toda mesmo. Você não mandou, não enviou a mensagem, o estímulo, o pontapé do movimento e mesmo assim, o corpo desobedeceu. Mexeu, sozinho. Outrem no controle remoto. Alguém te zoando, te sacaneando. Espíritos. Sua vó, talvez, minha prima.
Daí que você volta a tentar. Definitivamente os ombros são o problema, o costume do pescoço prum lado, a exigência do outro lado em estar perto também do travesseiro.
O homem ao meu lado desliga a TV agora, precisa dela pra dar sono vez ou outra. Se eu a vejo, eu me envolvo aos 45 do segundo tempo de um filme. Capaz d’eu chorar. Conforme a TV apaga, mesmo de olhos fechados, por uns segundos esqueço a GRÉCIA-NO-VERÃO-O-DIA-QUE-EU-QUEBREI-O-COPO-VERDE-DA-MINHA-VÓ-PRECISO-GANHAR-DINHEIRO-PRECISO-IR-NUM-ENDOCRINO-MEU-IRMÃO-PODIA-VOLTAR-O-BANHEIRO-ESTÁ-COM-O-TAPETE-IMUNDO e sinto a chegada das mitocôndrias visuais. Muito comuns em dias claros, na praia. Confundem com “vista arranhada”. Eu confundo com ribossomos e Complexos de Golgi. Ficam piscando e se mexendo dentro do meu olho, eu posso guiá-las pra lá e pra cá. Eu posso expandi-las, eu posso fingir que sumiram, mas fazer voltar. Eu só não posso dormir.
Boa noite, Grécia.
Boa noite, corpo.
Boa noite, ciência.
Ótima noite, guerra.
domingo, 22 de maio de 2011
terça-feira, 17 de maio de 2011
idéias com acento
idéia prum diálogo - 1:
duas pessoas conversando, tentando lembrar de onde se conhecem.
"do colégio tal? da casa do fulano?"
percebem que não.
e vão além.
"a gente não se conhece da inquisição? da fogueira?"
outras vidas.
idéia prum diálogo - 2:
uma mãe que vira pro filho e fala "nunca fale com espíritos hein!"
"nem sua bisa, nem seu avô."
duas pessoas conversando, tentando lembrar de onde se conhecem.
"do colégio tal? da casa do fulano?"
percebem que não.
e vão além.
"a gente não se conhece da inquisição? da fogueira?"
outras vidas.
idéia prum diálogo - 2:
uma mãe que vira pro filho e fala "nunca fale com espíritos hein!"
"nem sua bisa, nem seu avô."
terça-feira, 10 de maio de 2011
mamãe, mamãe, mamãe, eu me lembro
essa história é da tia márcia. ela parou o carro pra ir na farmácia. deixou a mãe e os 3 filhos pequenos dentro do carro. era 1986, 87. enquanto ela esperava pelo seu remédio, deu uma olhadinha lá fora. um homem, sentado no lugar dela, de motorista, liga o carro e começa a chegar pra trás. tia márcia sai correndo feito louca, gritando, chega no carro, finca suas unhas no pescoço do homem, berrando "solta! solta minha família!". depois de muito tempo, ela finalmente pára e consegue ouvir o que sua mãe estava dizendo: "márcia, você parou o carro na frente da garagem dele, minha filha, ele só estava puxando seu carro pra frente pra ele poder entrar." diz minha tia que não conseguiu nem pedir desculpas, porque não conseguiu falar. posso ver as marcas das unhas quase perto do sangue vir no pescoço do homem.
essa história é da tia rosângela. ela, meu tio e seus filhos subindo o alto da boa vista. tio cláudio dirigindo. um homem quer tentar ultrapassar, nessa época meu tio guardava um taco de baseball no carro, ele põe o braço pra fora, segurando o taco com força, ameaçando. parando na praça do alto, quase na floresta da tijuca, meu tio estaciona. um homem gigante e forte, se aproxima do carro do meu tio, ainda com todos dentro, coloca a mão na janela aberta e diz "e aí, amigo, cadê o pau?". meu tio, magrelo, estatura mediana, diz com a voz mais fina de toda sua vida "pau? que pau?". tia rosângela cai na gargalhada. na frente do marido, na frente do gigante, na frente dos filhos, na frente do pau.
essa é da minha mãe. ela e meu pai se beijam de língua, viajam, vão ao cinema, escrevem cartas de amor. com 5 anos, meu pai disse que eles iam se separar por um tempo. não entendi direito (nunca os vi brigando feio), só lembro que meu pai agora morava num lugar que eu e meus irmãos dormíamos numa rede e comíamos salsicha. três meses depois voltaram. nunca vi minha mãe chorando, nunca. nunca tocaram nesse assunto, não quiseram e não quisemos perguntar. um dia, com 18 anos talvez, quase sendo confundida com um grunge, estou eu na cozinha, mulamba, minha mãe questiona meu cuidado com minhas roupas, meu cabelo, minha aparência. eu resmungo, fazendo da vida um grande pleonasmo. ao que minha mãe resolve se pronunciar, pela primeira vez na vida, sobre sua separação: "minha filha, eu, mesmo quando me separei do seu pai, não deixei de raspar a perna!". não consegui comer o omelete.
feliz dia das mães, esse dia que não existe, esse dia bonecas-russas, esse dia glorioso onde você agradece a sua sentença de vida e de morte.
unhas cravadas, gargalhadas nervosas, pernas raspadas, deve ser o tal reino da alegria.
essa história é da tia rosângela. ela, meu tio e seus filhos subindo o alto da boa vista. tio cláudio dirigindo. um homem quer tentar ultrapassar, nessa época meu tio guardava um taco de baseball no carro, ele põe o braço pra fora, segurando o taco com força, ameaçando. parando na praça do alto, quase na floresta da tijuca, meu tio estaciona. um homem gigante e forte, se aproxima do carro do meu tio, ainda com todos dentro, coloca a mão na janela aberta e diz "e aí, amigo, cadê o pau?". meu tio, magrelo, estatura mediana, diz com a voz mais fina de toda sua vida "pau? que pau?". tia rosângela cai na gargalhada. na frente do marido, na frente do gigante, na frente dos filhos, na frente do pau.
essa é da minha mãe. ela e meu pai se beijam de língua, viajam, vão ao cinema, escrevem cartas de amor. com 5 anos, meu pai disse que eles iam se separar por um tempo. não entendi direito (nunca os vi brigando feio), só lembro que meu pai agora morava num lugar que eu e meus irmãos dormíamos numa rede e comíamos salsicha. três meses depois voltaram. nunca vi minha mãe chorando, nunca. nunca tocaram nesse assunto, não quiseram e não quisemos perguntar. um dia, com 18 anos talvez, quase sendo confundida com um grunge, estou eu na cozinha, mulamba, minha mãe questiona meu cuidado com minhas roupas, meu cabelo, minha aparência. eu resmungo, fazendo da vida um grande pleonasmo. ao que minha mãe resolve se pronunciar, pela primeira vez na vida, sobre sua separação: "minha filha, eu, mesmo quando me separei do seu pai, não deixei de raspar a perna!". não consegui comer o omelete.
feliz dia das mães, esse dia que não existe, esse dia bonecas-russas, esse dia glorioso onde você agradece a sua sentença de vida e de morte.
unhas cravadas, gargalhadas nervosas, pernas raspadas, deve ser o tal reino da alegria.
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